João Gabriel estreia em carreira solo com “Tudo Enquanto”, álbum sobre a finitude e a espontaneidade
Lançado pelo Sonastério, disco autoral combina psicodelia e gravações ao vivo em uma reflexão sobre o tempo, a memória e as contradições da existência
Escute aqui:
https://onerpm.link/154132031148
A consciência de que tudo acaba pode mudar a maneira como vivemos cada experiência. Essa contradição está no centro de Tudo Enquanto, primeiro álbum solo de João Gabriel, lançado pelo Sonastério. Entre a psicodelia e a espontaneidade das gravações ao vivo, o músico transforma inquietações sobre o tempo, a memória e a existência em um repertório que privilegia a liberdade de interpretação e a interação entre os músicos.
O título vem de “Quase Toda Alegria”, quarta faixa do disco e primeira composição do projeto. A expressão sintetiza a simultaneidade de acontecimentos, sentimentos e transformações que atravessam a vida. Em vez de buscar respostas definitivas sobre o que permanece quando o presente passa, João Gabriel parte dessa incerteza para construir um álbum que transita entre a valorização de cada instante e a consciência de sua impermanência.
“É uma frase que tem muita informação pra pouca palavra. Fala sobre simultaneidade, sobre todas as ações, sentimentos e transformações que se desenrolam ao mesmo tempo”, explica o artista. A ideia também carrega uma contradição: se a transitoriedade torna cada instante precioso, a possibilidade de que tudo seja esquecido relativiza a importância que atribuímos às coisas. O disco explora essa tensão sem reduzir as experiências a uma única interpretação.
A dualidade também aparece na capa, que contrapõe uma árvore sem folhas, evocando a morte, ao sol nascente, associado à renovação. A imagem traduz a convivência entre encerramentos e recomeços, um dos eixos conceituais do trabalho.
A busca por espontaneidade orientou não apenas a composição, mas também o processo de gravação. Influenciado pela dinâmica das bandas, especialmente as da década de 1970, João Gabriel reuniu uma formação fixa de instrumentistas com quem já mantinha relações profissionais e de amizade. Depois de apresentar as demos à equipe, levou os músicos ao estúdio e registrou as canções ao vivo, após apenas dois ensaios.
A escolha privilegiou a interação entre os integrantes e a abertura para o inesperado, em vez do controle minucioso de cada execução. “Eu gosto disso pois dá espaço para o não planejado, para o intuitivo de cada um. Além de fugir da busca por perfeição, que acredito estar deixando muita música estéril atualmente”, afirma.
A mesma lógica orientou a etapa de edição. João Gabriel dispensou o Auto-Tune e optou por preservar as performances instrumentais sem edições, mantendo as características originais das interpretações. Embora tenha assumido as edições do material, o músico não buscou eliminar as imperfeições das execuções. A intenção era preservar a expressividade dos instrumentistas e a energia particular de cada sessão.
Musicalmente, Tudo Enquanto explora a psicodelia, timbres expressivos e levadas que ampliam as possibilidades de escuta. As construções instrumentais se articulam a letras que abordam questões nem sempre passíveis de explicação racional, deixando espaço para a imaginação e para diferentes leituras.
Grande parte das letras é assinada por Pedro Tenca, letrista e tecladista que já colabora com João Gabriel em outros projetos. A afinidade criativa entre os dois permite transformar as inquietações do músico em construções poéticas sem eliminar a ambiguidade que atravessa o repertório.
A estreia solo reúne referências e questões pessoais em um projeto concebido como uma experiência de escuta contínua. A relação de João Gabriel com o formato álbum, cultivada desde a adolescência, orientou a organização das faixas: em vez de reunir composições independentes, o músico construiu um repertório em que as canções dialogam entre si, preservando suas particularidades.
O projeto terá ainda um desdobramento audiovisual. As performances de todas as faixas foram filmadas e documentadas para compor um curta-metragem dirigido por Emanuel Duarte, responsável também pela filmagem, concepção visual e edição. A direção criativa é compartilhada com João Gabriel, e a iluminação é assinada por Caio Luiz. O filme amplia a dimensão performática do álbum ao registrar os músicos e a atmosfera das gravações.

