Sob liderança de Doné Neide de Oyá, Roça do Vargedo reivindica tombamento e direito à ancestralidade
Comunidade matriarcal de Candomblé Jeje-Mahi, localizada em Juquitiba (SP), busca reconhecimento e proteção de seu território para assegurar a continuidade de sua linhagem religiosa diante do racismo religioso.
Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, o Hunkpame Avejidá Dan Oyá, conhecido como Roça do Vargedo, protocola junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) um pedido de tombamento de seu território, localizado em Juquitiba, na Região Metropolitana de São Paulo. Liderada pela matriarca Marineide Santa Rita Santos, conhecida como Doné Neide de Oyá, a comunidade de Candomblé Jeje-Mahi reivindica a proteção de seu patrimônio histórico, cultural e religioso como forma de enfrentar o racismo religioso e assegurar o direito à ancestralidade.
Para a Roça do Vargedo, o pedido de tombamento representa mais do que a preservação de um espaço físico. Trata-se de garantir condições para que seus conhecimentos, fundamentos e práticas religiosas continuem sendo transmitidos entre gerações. A proteção do território está diretamente relacionada à continuidade de uma linhagem ancestral e ao direito de seus integrantes e descendentes de conhecer, vivenciar e preservar sua própria história.
Fundada por Doné Neide de Oyá, mulher baiana que construiu sua trajetória pessoal e religiosa em São Paulo, a Roça do Vargedo tem sua história marcada pela liderança feminina e pela preservação das heranças religiosas e culturais do povo Fon, da região do atual Benim, na África Ocidental. Em outubro de 2026, Doné Neide completa 34 anos de iniciação religiosa, trajetória dedicada à formação de gerações de filhos e filhas de santo e à continuidade dos fundamentos do Jeje-Mahi.
A fundação do Kwe ocorreu em 4 de dezembro de 2005, em Osasco (SP), marcada pela primeira ahama de vodunsís e pela confirmação dos primeiros cargos religiosos. Durante mais de uma década, o município abrigou a formação e a consolidação da comunidade, reunindo pessoas em torno das práticas religiosas, do acolhimento e da transmissão de saberes.
Em 2018, a Roça do Vargedo transferiu-se para Juquitiba, onde permanece em atividade. Cercado por árvores, vegetação abundante e um rio, o território abriga práticas religiosas nas quais a relação com a natureza ocupa lugar fundamental.
Atualmente, a comunidade reúne cerca de 90 filhos iniciados, entre vodunsís, ekedjis e ogans. Entre eles, estão artistas com atuação reconhecida na música e na cultura brasileira, como Ogorensì Luedji Luna de Gbecem, Dofona Liniker de Oyá, Dofona Tássia Reis de Oxum, e Dofona Sarah Aline de Oyá. Considerando também abians e frequentadores, mais de 150 pessoas mantêm vínculos com a Roça do Vargedo, formando uma comunidade que reúne diferentes gerações em torno da tradição.
Uma linhagem ancestral que atravessa territórios
A história da Roça do Vargedo integra os caminhos de transmissão do Candomblé Jeje-Mahi no Brasil. Sua genealogia religiosa remonta a Tata Fomotinho de Oxum e mantém vínculos ancestrais com a histórica Roça do Ventura, localizada em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e reconhecida como patrimônio cultural brasileiro pelo IPHAN.
Essa linhagem atravessa diferentes gerações de sacerdotes e sacerdotisas, alcançando a trajetória de Doné Neide de Oyá, cuja iniciação religiosa contou com a participação de Doté José Luiz dos Santos Ferreira, conhecido como Doté Zé Luiz.
O vínculo ancestral com outras casas de tradição Jeje-Mahi integra a identidade religiosa da Roça do Vargedo, que, ao longo de sua trajetória, constituiu sua própria comunidade, formou novas gerações e estabeleceu um território de continuidade desses conhecimentos em São Paulo.
Racismo religioso e a luta pela proteção do território
No dia 27 de janeiro de 2024, por volta das 22h, durante uma festividade religiosa no Hùnkpámè Avejidá Dan Oyá, policiais militares entraram no território da Roça do Vargedo sem aviso prévio ou autorização da comunidade. Segundo os relatos, a equipe foi ao local após reclamações de um vizinho sobre o volume do som e uma suposta perturbação da ordem.
“Fui a primeira a identificar a entrada dos policiais no barracão. Saí discretamente para verificar o que estava acontecendo e, quando olhei para trás, as demais autoridades religiosas também vinham em minha direção”, relata Deré Aline de Gbecem.
Segundo Aline, um dos policiais entrou no terreno, fato registrado pelas câmeras de segurança da casa, e perguntou quem era a responsável pelo local. Em seguida, solicitou o documento de identidade de Doné Neide de Oyá e questionou se ela tinha antecedentes criminais.
“Questionei a entrada dos policiais e disse que aquele era um terreno particular, onde eles não poderiam entrar sem autorização. O agente reconheceu que sabia disso, mas alegou que estava atendendo a um chamado”, afirma Aline. Ela acrescenta que os agentes não dispunham de equipamento para medir o nível de pressão sonora.
Hunsó Ingrid de Nanã, também presente na ocasião, afirma que a festividade acontecia dentro do horário previsto. “Quando chegamos à entrada da casa, os policiais já estavam dentro do território, entre os carros estacionados”, relata. Segundo ela, os agentes perguntaram se havia algum vizinho que não gostava da comunidade, pois recebiam reclamações frequentes de barulho e perturbação da ordem.
A abordagem a Doné Neide foi especialmente marcante. De acordo com Ingrid, um dos policiais afirmou que, caso a matriarca tivesse antecedentes criminais, precisaria conduzi-la à delegacia.
“O que minha mãe lembra dessa frase até hoje, e que a magoa profundamente, é ter sido colocada na posição de uma criminosa, quando estávamos ali apenas cultuando e louvando a nossa religião”, afirma Ingrid.
Ela relata que, ao final da ocorrência, os policiais pediram desculpas e mencionaram as ligações frequentes do vizinho. Um dos agentes também teria reconhecido a presença de diversas igrejas e outros espaços religiosos na estrada do Vargedo, sem registro de reclamações semelhantes contra eles.
O episódio ampliou a preocupação da comunidade com o respeito à liberdade religiosa e à integridade de seu espaço sagrado. Nesse contexto, o pedido de tombamento busca contribuir para proteger um território essencial à continuidade das práticas religiosas, à transmissão dos conhecimentos ancestrais e ao enfrentamento do racismo religioso.
Articulação política e reconhecimento da defesa cultural
A atuação do Hunkpame Avejidá Dan Oyá também se expressa na defesa pública das tradições de matriz africana, na valorização dos saberes ancestrais e na participação em espaços de diálogo sobre cultura, memória e futuro. Sob a liderança de Doné Neide de Oyá, a comunidade contribui para o reconhecimento do Candomblé Jeje-Mahi e de suas lideranças, reafirmando o papel dos terreiros como espaços de preservação da memória, produção de conhecimento e continuidade cultural.
Em 20 de março de 2018, o Hùnkpámè Avejidá Dan Oyá, recebeu a visita do Pontífice Daagbo Hounon Houwamenou e de sua esposa, Mianon Kpessi Ko’ndodo Acakpo, representantes das tradições religiosas e da realeza do Benim. A recepção ocorreu durante uma programação realizada em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura, com a participação do Rei de Aguagon, Babá Tao, e contou com o apoio do Fórum Social Mundial e da Roça do Ventura, o Zògbódò Malè Bògún Sèjá Hùndé. O encontro constituiu um momento significativo para a comunidade, reafirmando os vínculos históricos, religiosos e culturais entre o Brasil e o povo Fon e a importância da preservação dessas heranças ancestrais. A visita também evidencia a atuação da Roça do Vargedo na manutenção de relações com referências religiosas e culturais do continente africano, fortalecendo o reconhecimento da tradição Jeje-Mahi e de seus territórios no Brasil.
Em 30 de abril de 2023, o Hunkpame Avejidá Dan Oyá participou da Feira dos Oborós, iniciativa dos povos de axé dedicada à preservação e à valorização da memória das diferentes nações do Candomblé no Brasil. Na edição daquele ano, a nação Jeje e suas diferentes ramificações foram homenageadas, e Doné Neide de Oyá recebeu o título de Doutora Honoris Causa por sua contribuição à tradição Jeje-Mahi como sacerdotisa, honrando, cultivando e resguardando o culto aos Voduns. A relevância cultural e política da iniciativa também foi reconhecida institucionalmente: em 29 de setembro de 2023, foi promulgada a Lei Estadual nº 10.117, que declarou a Feira dos Oborós Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A titulação de Doné Neide representa, assim, não apenas o reconhecimento de sua trajetória religiosa, mas também a valorização das lideranças que mantêm vivos os conhecimentos ancestrais e contribuem para a continuidade das tradições de matriz africana no Brasil.
Ainda em 2023, no dia 07 de outubro, Doné Neide de Oyá participou da solenidade de abertura da AfrOya Tech Conf, evento realizado por Andreza Rocha, uma das filhas da casa, que promove diálogos entre tecnologia, cultura, ancestralidade e inovação com o protagonismo de pessoas negras. Na ocasião, a matriarca foi apresentada como ancestral e Griot, convidada para a fala intitulada “O tempo da Ancestralidade”, em consonância com o tema daquela edição: “É Iroko | Ontem, Hoje e Amanhã: O tempo dos Ancestrais do Futuro, agora!”. Sua participação levou ao evento a importância dos saberes ancestrais e da preservação das tradições africanas, aproximando conhecimentos transmitidos entre gerações das discussões sobre os futuros possíveis.
A presença da comunidade na programação reflete o lugar do candomblé como fruto e artefato vivo da tecnologia e produção de conhecimento. Sua participação evidencia como os integrantes da casa, inclusive seus filhos de santo, também atuam em espaços de reflexão crítica sobre as desigualdades raciais contemporâneas, articulando diferentes campos de conhecimento e reafirmando a importância da presença negra na produção científica e tecnológica.
Esses reconhecimentos e participações integram uma trajetória dedicada à preservação do Candomblé Jeje-Mahi em São Paulo e à defesa dos direitos dos povos de terreiro. A atuação de Doné Neide de Oyá e dos integrantes do Hunkpame Avejidá Dan Oyá evidencia que a defesa da ancestralidade também se realiza na vida pública, na transmissão de conhecimentos e na luta pelo reconhecimento das contribuições culturais, religiosas e intelectuais das comunidades tradicionais de matriz africana.
É nesse contexto que a reivindicação pelo tombamento do território da Roça do Vargedo ganha mais significado. Mais do que reconhecer a importância histórica e cultural da comunidade, a medida busca contribuir para a proteção de um espaço onde essa tradição se materializa, onde os fundamentos religiosos são transmitidos e onde novas gerações constroem seus vínculos com a comunidade e com os ancestrais. O reconhecimento da trajetória de sua matriarca e da contribuição cultural da casa precisa estar acompanhado de condições para a continuidade de sua existência. Preservar esse território é, portanto, parte da defesa do direito à ancestralidade e do enfrentamento ao racismo religioso.
O direito à ancestralidade das próximas gerações
O pedido de tombamento ocorre no mesmo mês em que Doné Neide de Oyá completa 34 anos de iniciação religiosa. A data acompanha um momento importante da trajetória da Roça do Vargedo, que busca reconhecimento institucional para fortalecer a preservação de sua história e a transmissão de seus fundamentos religiosos.
Ao reivindicar o tombamento, a Roça do Vargedo coloca em evidência a importância da proteção dos territórios tradicionais de matriz africana como espaços de memória, conhecimento e continuidade religiosa. Para a comunidade, assegurar o direito à ancestralidade significa garantir que as gerações futuras possam acessar a história de seus antepassados, reconhecer seus pertencimentos e encontrar condições para manter viva a tradição que receberam.
Sobre a Roça do Vargedo
O Hunkpame Avejidá Dan Oyá, conhecido como Roça do Vargedo, é uma comunidade matriarcal de Candomblé Jeje-Mahi fundada em 4 de dezembro de 2005, em Osasco (SP), por Marineide Santa Rita Santos, Doné Neide de Oyá. Atualmente localizada em Juquitiba (SP), reúne mais de 150 pessoas, entre iniciados, abiãs e frequentadores. Descendente da linhagem religiosa de Tata Fomotinho de Oxum, preserva vínculos ancestrais com a Roça do Ventura, o Zògbódò Malè Bògún Sèjá Hùndé, fundada no ano de 1858 em Cachoeira (BA), e atua na transmissão intergeracional dos fundamentos da tradição Jeje-Mahi.

