A busca incansável pelo instante em “Mística”, novo single de Marcos Almeida
Marcos Almeida (Créditos: Mavi)
Faixa inspirada na obra de José Tolentino Mendonça fará parte do álbum Todo santo dia, e retrata a magia do momento, em trabalho de carpintaria musical desde a composição até a pós-produção
O gráfico de ondas sonoras que representa a canção Mística, lançada nesta semana por Marcos Almeida, começa com um rabichinho bem pequenininho e vai crescendo, crescendo, até ficar bem grandão. Ele demonstra perfeitamente a dinâmica do segundo single do álbum Todo santo dia”começa com um som de passarinhos, bem miudinho, depois entra um violão com as cordas abafadas pela palma da mão.
Quando a voz quase sussurrada de Marcos entra, como se estivesse bem pertinho de você, ela pergunta: “Sabe aquele instante quando eu falo instante?/ Exatamente agora quando eu disse agora?” E prossegue, agora com mais firmeza:”Sabe aquele som um pouco dissonante/ Aquele acorde tenso que compõem a obra?”, e cada vez mais enfático: “Sabe quando eu posso sentir o teu cheiro?/ Aquele raro instante quando eu te vejo?”. E a canção vai crescendo, crescendo, levando o ouvinte, aos poucos, até um êxtase arrebatador e insuspeito quando pergunta: “Sabe quando toco a tua pele preta/ Aquele nosso tempo de sentar à mesa? E a resposta é sempre “É ali que Deus mora”.
Mas acrescenta: “E agora também/ Agora”
A música também ganhará um videoclipe com imagens registradas durante a turnê De casa em casa, projeto em que o artista realiza shows nos lares dos seus superfãs. A turnê terá nova temporada a partir de setembro, com shows no interior de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Brasília.”Desde Novembro de 2025 eu tenho cantado Mística na turnê. Ninguém pode filmar ou gravar. Mas registramos cada uma das 32 casas até aqui e isso vai virar um clipe!”, contextualiza o artista.
Produzida por Buzu, mixada e masterizada por Jordan Macedo, a faixa é resultado da busca incessante pela expressão mais perfeita da canção, tanto na tradução sonora da mensagem quanto na maneira como emula o instante da criação. É como se você estivesse diante do cantor, à beira de uma fogueira, enquanto ele improvisa a canção na sua frente. “O Marcos tinha uma visão e a gente foi buscar essa visão, e enquanto não chegamos nela, não paramos de buscar”, sintetiza o produtor. “Certas canções já chegam com um arranjo muito claro na cabeça do compositor”, esclarece o artista. “Neste caso, a primeira gravação que eu mostrei pros meninos, deixou uma primeira impressão muito forte, e nós tentamos retornar a ela”, conclui.
Não foi fácil. Mais de 10 versões. Diferentes violões. Diversos arranjos. Vários dias. Muitos debates. E o desafio imenso de transmitir grandeza na simplicidade, potência com delicadeza. “Eu só tava preocupado em alcançar um sonho com o Marcos. A gente tinha nas mãos uma questão que era: como amplificar esse som, com qualidade, peso e estrutura, sem perder a essência? E aí a gente entrou num dilema que demandou muito esforço, busca, estudo e teste. Graças a Deus, conseguimos”, comemora o produtor.
“Aqueles passarinhos que estão ali eu lutei pra ter, por uma questão afetiva, de lembrar daquele momento”, Marcos comenta, e Buzu complementa: “Eu lembro de uma sessão específica em que fiquei com o Marcos, durante umas duas horas, num site de passarinhos. A gente teve que pesquisar a região para saber qual era a espécie específica”, conta, ilustrando o esmero e o preciosismo que envolveram o trabalho.
Para ele, a simplicidade da canção, com poucos elementos, só torna tudo mais difícil. Jordan concorda e explica por quê: “Quanto menos elementos a música tem, maior o protagonismo deles e a necessidade de estarem equilibrados e polidos do início ao fim.” Responsável pela pós-produção, Jordan participou desde o começo com uma escuta atenta, de fã que sempre foi, e com bons palpites. “Eu trouxe um tom mais grave, uma voz gigantesca, ‘na cara’, porque o Marcos, apesar de modesto, é um grande cantor brasileiro e eu fiz questão de aumentar a voz dele”, conta. Na maneira como ele toca o violão, também, ele traz sentido para a letra, então o beat, por exemplo, acompanha a entonação dele”, conclui.
Mística foi a faixa mais votada entre as 24 canções apresentadas, em uma audição online, a uma audiência formada por superfãs de Marcos no Spotify, muitos dos quais hospedaram a turnê De Casa em Casa. Pessoas comuns, sem relação profissional com a música, como aqueles que vão escutá-la no fim das contas.
A letra foi inspirada no livro A mística do instante, do poeta, cardeal e teólogo português José Tolentino de Mendonça, que propõe a ideia de que os sentidos do corpo e não apenas a razão são os recursos que temos para perceber o sagrado. Marcos dimensiona o quanto essa inspiração foi importante com a seguinte frase: “Ele praticamente colocou a bola, assim, na marca do pênalti, e falou: ‘Chuta aí, velho!’. Então eu devo muito a ele e à leitura da obra dele que fizemos no clube do livro”.
Marcos também ressalta a proximidade com o professor e poeta Márcio Capelli, editor da obra de Tolentino no Brasil. “Quando mostrei essa música para o Capelli ele disse: você driblou o tempo, meu amigo, conseguiu esticar o agora, pra gente permanecer nele mais um pouco e contemplar o mistério.”
Sucedendo Vai Ser Criança, Mística é o segundo single do novo álbum de Marcos Almeida, Todo Santo Dia. O trabalho contará com sete faixas que sugerem um ciclo de sensações de segunda a domingo, e serão lançadas semanalmente até completar o álbum. “É um disco que acompanha o cotidiano. Você sai do trabalho, entra no ônibus, ou no carro, e no caminho de volta pra casa, encontra uma música que te devolve o encanto da vida comum”, conclui Marcos.
LETRA
MÍSTICA (Marcos Almeida)
Sabe aquele instante quando eu falo instante
Exatamente agora quando eu disse agora?
É ali que Deus mora
Sabe aquele som um pouco dissonante
Aquele acorde tenso que compõem a obra
É ali que Deus mora
E agora também agora
E agora também agora
Sabe quando eu posso sentir o teu cheiro
Aquele raro instante quando eu te vejo
É ali que Deus mora
Sabe quando eu toco a tua pele preta
Aquele nosso tempo de sentar à mesa
É ali que Deus mora
E agora também agora
E agora também agora


