Living in the Shit, banda alagoana da cena mangue beat, volta a compor e lança, em 2026, álbum com novas músicas e releituras
Créditos: Allison Quintella Silva
Living in the Shit (LIS), proeminente banda da cena mangue beat, formada pelos irmãos Marcelo e Eduardo Quintella no início dos anos 90, está gravando um novo disco, que deverá sair em 2026, após um hiato de quase 30 anos sem registros de estúdio. O álbum, intitulado Corais, marca o retorno do vocalista e compositor Marcelo Quintella e será lançado de forma independente pelo selo Underground Signal, de Nova Iorque, em vinil, CD e nas principais plataformas digitais.
Tanto a LIS quanto o Manifesto Mangue Beat surgiram no contexto político nacional das manifestações de rua pelo impeachment do Presidente Fernando Collor. A própria escolha do nome Living in the Shit veio expressar a sensação de insatisfação com aquele momento sociopolítico brasileiro e, especificamente, com a região Nordeste, marcada pela precariedade, corrupção e falta de investimentos.
Embora não possa ser categorizada facilmente ou inserida num único estilo, a Living in the Shit firmou seu nome na década de 90 como única banda não Pernambucana da cena mangue beat, embora fosse inicialmente formada no punk/hardcore. Ao longo do seu percurso, a Living in the Shit foi, aos poucos, assimilando outros gêneros musicais.
De volta aos estúdios
O novo album traz seis músicas novas e seis releituras de demos. Segundo Marcelo Quintella, “Mesmo depois de sair da banda, em 1998, fiquei com a sensação de que a pré-produção do que seria nosso segundo álbum deveria ser terminada. Eu acreditava que, se na época houvesse mais verba e pudessemos ter trabalhado mais naquelas composições, teria saído um material incrível. A partir daí, resolvemos fazer releituras daquelas composições e, posteriormente, sentimos a necessidade de também compor novas músicas. A idéia era que [as novas composições] tivessem uma sonoridade próxima àquela que tínhamos buscado naquela pré-produção em 98, mas também uma conexão com o nosso primeiro álbum, Chá Magiológico.”
O conceito e a sonoridade de Corais partem de dois registros anteriores: o primeiro disco, de 1995, e a gravação do que seria o seu segundo. Mais de 30 anos depois da sua formação e da posterior explosão da cena que a acolheu e proporcionou visibilidade nacional, a Living in the Shit volta com a combinação de peso, e elementos de diferentes vertentes da música negra e ritmos regionais, marca registrada da banda.
Maturidade e crítica social
A energia adolescente e pós-adolescente da LIS do final dos anos 90 surge, agora, numa versão madura e mais sofisticada. As músicas abordam temas como o impacto ambiental do turismo de massa e o aumento do consumo de informações e conteúdos pela internet, que deixam as pessoas mais vulneráveis à manipulação de fatos e às fake news.
No novo álbum, a crítica social se faz presente em letras sobre o cotidiano mediado pelo digital, em impressões sobre cidades à mercê da exploração política e turística e o desafio de encontrar sentido em ambientes culturalmente rudes à convivência social.
Novas composições e parcerias musicais
Corais foi gravado no Tropical Áudio, em Maceió, Alagoas, e produzido pelos irmãos Quintella e Castor Daudt, da banda De Falla. O album foi mixado em Chicago, U.S.A, por Greg Norman no estudio Electrical Audio e masterizado por Matthew J. Barnhart.
O álbum consta de 12 músicas, sendo sete composições inéditas (sendo uma introdução) e cinco releituras das duas últimas demos produzidas pela banda. São elas “Um Trelelê no Coração” e Um Ronco da Garganta”, da demo Quentura, e “Catenga Land”, “Argueiro Eye” e “Solar”, da demo Catengologroove. As novas canções mantêm a essência do som da banda, dialogando perfeitamente com o que foi feito há quase 30 anos.
A introdução, “9º 41’00’’ Sul 35º 43’00’’ Oeste”, nada mais é do que as coordenadas do Farol da Ponta Verde.
Em “Corais”, música que dá nome ao disco, Marcelo Quintella foca no – cada vez mais premente – tema da exploração ambiental, ancorado por uma mistura perfeita de psicodelia, reverberação e peso. “Hábitos Digitais” traz uma sonoridade de caráter levemente melancólico e, ao mesmo tempo, urgente em que a solidão desses nossos tempos de superexposição digital se torna quase palpável. Os vocais suaves de Lore B, artista da novíssima geração musical alagoana, que também participa em “Larva Migrans”, encaixam perfeitamente na canção.
“Larva Migrans” usa um pequeno trecho da letra de de “220 voltz”, da demo Catengologroove, e começa com o wah-wah característico de Eduardo Quintella, e evolui para um rock intenso, fazendo o ouvinte viajar para a época em que Living in the Shit e Banda Eddie dividiam o palco. A participação de Wado (nome incontornável da MPB brasileira pós mangue beat) nessa música, tão distante da sonoridade do artista, funciona de forma surpreendentemente perfeita.
“Caramujos”, que tem a participação de Fabio Trummer, traz um rock intenso, barulhento, com doses de balanço e psicodelia e uma letra que, espertamente, traça um paralelo entre parasitas hospedeiros e políticos que defendem os próprios interesses.
Toda a potência de “Agridoce”, com a participação de Jurandir Bozo, mestre do coco de roda alagoano, fica patente logo nos primeiros acordes. Uma das canções mais fortes do disco, a letra revisita “Rojão”, música do álbum Chá Magiológico, partindo de uma perspectiva mais geral – a do nordestino deslocado para o Sudeste e Sul do Brasil – para uma mais pessoal. Nela, o vocalista Marcelo Quintella explora sua própria experiência como imigrante – primeiramente na Europa e, posteriormente, nos Estados Unidos, momento em que a xenofobia e o sentimento anti-imigração intensificam-se em diversas partes do mundo. “Agridoce” explora a dualidade da busca por uma vida melhor e o sentimento de não pertencimento.
“Catenga Land” inicia mais calma e depois ganha intensidade, bebendo no mesmo imaginário e temática, com um vocal que, às vezes, beira a embolada. A participação de Jurandir Bozo nessas duas canções adiciona não apenas textura como também componentes de autenticidade e regionalidade. Impossível deixar de destacar a qualidade dos sons produzidos pelo guitarrista Eduardo Quintella, que ajudou a esculpir uma certa sonoridade para sempre emblemática da cena mangue beat.
Ao trazer participações de artistas nordestinos tais como Jurandir Bozo, Wado, Lore B, o percussionista Wilson Santos e Fabio Trummer, a Living in the Shit reitera os fundamentos do mangue beat como cena cultural antropofágica – incorporando tanto a cultura pop quanto a regional – e o seu espírito de cooperação e troca.
Corais é concebido num momento em que, no âmbito mundial, gêneros musicais se misturam cada vez mais, rompendo barreiras e tornando rock e pop mais complexos, ricos e difíceis de categorizar. Com o seu novo álbum, a Living in the Shit firma o seu nome como um dos pioneiros na incorporação de gêneros e estilos sonoros para produção de um som sólido e único, destacando-se, assim, como a grande banda alagoana dos últimos 30 anos. Por tudo isso e também pela Living in the Shit manter os pés bem fincados na realidade local e em sonoridades e temáticas de importância global, Corais é um álbum mangue beat em toda a sua essência.
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