Entrevista: Entre tambores, afetos e tecnologia: o universo sonoro do Mandinga Beat
Mandinga Beat (Dani Dacorso)
Unindo musicalidade afro-diaspórica, inovação tecnológica e um profundo resgate das raízes bantu, o Mandinga Beat apresenta o single “Kafofo” como mais do que uma música — uma experiência sensorial e política. A canção, que mistura afrohouse, ijexá e samba em clima de dengo e aconchego, tem como fio condutor o amor preto, tratado aqui como forma de resistência e cura coletiva. Para o trio formado por Victória, André e Joss, valorizar a ancestralidade é também projetar futuros possíveis, onde a afetividade e a arte caminham lado a lado na construção de um Brasil mais plural.
No recém-lançado álbum Mandinga Beat Novo, essa proposta se amplia com camadas sonoras que cruzam fronteiras culturais e geográficas, trazendo participações internacionais e reverência a tradições africanas e brasileiras. Em entrevista ao Portal Mais Brasil, o grupo fala sobre o processo criativo de “Kafofo”, a importância de cantar o amor a partir de um olhar afrocentrado e como sua música, ao mesmo tempo que convida à dança, também propõe reflexões profundas sobre identidade, espiritualidade e transformação social.
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O single “Kafofo” traz uma forte conexão com palavras de origem bantu, como “dengo” e “cafofo”. Como vocês entendem a importância de resgatar e valorizar essas raízes na música brasileira de hoje?
[André]: Kafofo é Bantu. É amapiano, é Ijexá, é samba. O downtempo deixa o clima envolvente para o dengo. Nossos tambores são matriz para a música do mundo, celebrar essa fusão exaltando a contribuição africana para a cultura universal é o que queremos trazer com a música, como também palavras de origem bantu, uma das principais matrizes etnico-culturais que temos no Brasil. -
O trio define a faixa como um “lugar seguro para celebrar o amor preto”. Como esse conceito se conecta com o Brasil atual, que ainda enfrenta tantos desafios em relação à igualdade racial e afetiva?
[Victória]: É um convite a viver e se relacionar a partir de um olhar afro centrado. Isso é Mandinga Beat. Propomos através da música superar as dificuldades, barreiras e desafios que uma sociedade fundada sobre o racismo e o machismo impõem a corpos pretos. Queremos que o amor e a música nos conduzam a libertar-nos das correntes emocionais do passado e que possamos olhar pra frente com esperança e atitudes de transformação. -
O álbum “Mandinga Beat Novo” é descrito como um portal sonoro que atravessa fronteiras. Qual a principal mensagem que vocês querem deixar para o público brasileiro com esse projeto?
[Joss]: Queremos que as pessoas dancem. Essa linguagem não tem fronteiras. Mandinga Beat Novo é música para dançar, expandir a consciência e lembrar que, quando o ritmo conduz, as fronteiras desaparecem. Nossa mensagem é de respeito à diversidade e união dos povos periféricos do mundo. Nossa música nasce em todo suspiro de vida e esperança que os povos originários, africanos e da diáspora exalam. E nosso som busca ecoar nos corações e corpos dançantes que buscam se libertar. -
Victória, você compôs a letra de “Kafofo”. Como a sua vivência pessoal e sua relação com o afeto influenciaram essa escrita? Tem toda relação. Eu escrevo muito na emoção, e se já tem uma base instrumental pronta, eu fluo com o que a musicalidade sugere. Eu compus a letra como quem entrega o coração para alguém. Quis retratar o afeto e a cumplicidade, criando um lugar seguro para o amor.
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André, vindo do Ponto de Equilíbrio e de tantos projetos ligados ao reggae, como você enxerga a transição para o Mandinga Beat e a fusão com o afro house e o ijexá? Pra mim foi uma transição muito natural, tem a ver com os sons que ouço, os lugares que fui e vivenciei ancestralidades em África, pelo mundo e pelos Brasis. Já na época do Ponto dava pra perceber essas influências ali: desde o primeiro disco tínhamos afrobeat, instrumentais psicodélicos dub, tempos compostos, samba, guitarras polirrítmicas, em um ambiente em que isso não é tão comum como o reggae mas que se tornou também marca registrada. No Mandinga Beat, tenho a oportunidade de construir com esses dois artistas incríveis que são a Vic e o Joss, muitas outras possibilidades de fusões ancestrais futuras. É um portal mesmo para novas possibilidades lindas e infinitas.
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Joss, você já produziu artistas como Luedji Luna. O que o Mandinga Beat te permite explorar de forma inédita na sua carreira como produtor? O Mandinga beat me permite explorar uma musicalidade fluída e colaborativa com referências que eu conheço e referências novas compartilhadas com os membros da banda e participações. Cada faixa é uma mistura de universos e saberes de diferentes origens.
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A participação do produtor zimbabuense Melo-T reforça essa ideia de diáspora. Como foi o processo criativo dessa colaboração internacional? [André]: Nós conhecemos o Melo-T através de outro grande amigo e músico que participa também do disco, o Jhayam. Ele já estava na busca de produzir coisas novas de afrofusion e quando ele veio em nosso estúdio, produzimos algumas faixas juntos, duas delas geraram “Kafofo” e “Chimurenga”. Essa última teve sabor especial, pois homenageamos o país de origem dele, Zimbabwe. Tudo fluiu muito naturalmente e da vivência que tivemos com o convidado, como foi em todo processo do disco.
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Para o público brasileiro que ainda não conhece vocês: por que “Kafofo” é a melhor porta de entrada para o universo do Mandinga Beat? [Victória]: É sempre um processo difícil escolher a tal da música-foco para divulgar. Escolhemos “Kafofo” pela mensagem universal que é também um aconchego. Quem não tem alguém que te faz sentir num kafofo bom né? E também a harmonia e melodia trazem o afrohouse para um ambiente bem brasileiros, acho que consegue transmitir quem somos. Convidamos vocês a escutarem o disco do começo ao fim. “Golden Beauty”, “Chimurenga”, “Mente Sã”. Tem muita coisa legal.

