Do detalhe ao todo: por que gusTTanu desponta como uma das vozes mais interessantes da cena independente
Foto: Felipe Bressan
Nos próximos meses você ouvirá falar muito de gusTTanu. O artista conversou com Mais Brasil sobre seu processo criativo guiado menos por estratégia e mais por estado de espírito. Ambientes, rotinas, cidades e até o cansaço do cotidiano se transformam em música, estética e conceito. Entre o R&B atravessado por referências internacionais e uma brasilidade que surge de forma orgânica, ele fala sobre desejo, corpo, idioma e identidade como quem observa de perto, atento aos mínimos gestos. Paris, longe dos cartões-postais, vira cenário e metáfora desse olhar sensível para o detalhe.
Mas é quando o assunto vira futuro que a conversa ganha contornos ainda mais instigantes. Com uma sequência de lançamentos já em movimento, a retomada dos palcos no radar e a construção de um álbum pensado como obra completa, 2026 aparece como um ponto de virada na trajetória do artista. Mais do que uma coleção de singles, gusTTanu projeta um trabalho com começo, meio e fim — e esta entrevista funciona como um raro vislumbre do que está prestes a ganhar forma.

MAIS BRASIL: Vamos começar falando sobre seu último single, “FOI”. É uma canção que aposta nesse tom de clima íntimo. Em que momento você percebeu que queria seguir por esse caminho mais contido e sensorial?
gusTTanu: Na verdade, eu nunca percebi que “quis” seguir um caminho específico. Eu não costumo escolher racionalmente por onde cada obra vai. As composições surgem muito mais como reflexo do que eu estou sentindo e do que estou ouvindo naquele período. Me guiando pelas emoções, eu tento materializá-las em melodia, harmonia, ritmo e letra. “FOI” acabou pedindo esse clima mais contido e sensorial de forma natural.
A música fala muito do que não é dito, do desejo insinuado. Como foi escrever pensando mais na sensação do que na narrativa direta?
Escrever a partir da sensação, mais do que da narrativa direta, é algo que faz parte do meu jeito de compor. Muitas vezes eu preciso me policiar para deixar as coisas um pouco mais claras, porque a tendência é usar muitas imagens e figuras de linguagem, o que acaba deixando a ideia que eu quero passar nas entrelinhas.
Você define “FOI” como uma faixa para fone de ouvido e meia-luz. O quanto o ambiente influencia sua criação musical hoje?
Eu sou completamente influenciado pelo ambiente. Pra responder essa pergunta, gosto de usar como exemplo “Novo Dia”, um dos meus próximos lançamentos. A partir de agosto de 2024, comecei a trabalhar de casa, e meu espaço de trabalho, lazer e intimidade passaram a ser o mesmo. Com uma rotina muito parecida todos os dias, comecei a me sentir preso, e esse ambiente repetitivo acabou dando origem a uma música inteira, algo que também quero transmitir no clipe. “FOI“ também foi totalmente influenciada pelo ambiente, mas de outra forma, em um lugar mais aconchegante e propício para se perder sem pressa.
O R&B da faixa flerta com referências internacionais como Mac Miller e Masego, mas mantém uma identidade muito própria. Onde você sente que está sua “brasilidade” nessa canção?
Se eu disser que coloquei a brasilidade de forma intencional nessa obra, eu estaria mentindo, mas acredito que ela aparece de forma natural, a partir da maneira como eu consumo cultura. Apesar das referências internacionais, como Mac Miller e Masego, a maior parte do que eu ouço é música nacional, de gêneros muito variados, e isso acaba atravessando o processo criativo. Indo além da canção, no clipe essa brasilidade também aparece, ainda que de forma sutil, no corpo, no jeito de se mover e de dançar. A identidade própria com esse toque brasileiro também passa pela produção do Rapaz do Dread, que mesmo partindo de uma referência gringa, transfere nossa cultura de forma quase automática para o beat. A brasilidade está nas nossas entranhas, e isso se manifesta também no idioma. Eu amo o português, e quem estuda canto um pouco mais a fundo sabe o quanto ele é particular, inclusive pelo tipo de ataque vocal que a língua muitas vezes exige.
O audiovisual gravado em Paris evita o óbvio turístico e aposta no silêncio urbano. O que essa cidade despertou em você artisticamente, de alguma maneira?
O que faz Paris ser tão bonita, pra mim, é a riqueza dos detalhes, mesmo os pequenos. Olhando para a arquitetura, nada parece genérico. Um simples portão de ferro carrega ornamentos únicos, as estruturas contam história e cada pedaço de concreto tem uma nuance própria. A arte faz parte da cidade e essa grandeza aparece justamente no cuidado com os detalhes. Isso acabou dialogando muito com “FOI”. A música também é construída a partir de pequenos elementos colocados nos lugares certos, cada um brilhando no momento em que precisa, como um harmônico artificial de guitarra que passa quase despercebido numa escuta mais ampla, mas faz toda a diferença. Assim como caminhar por Paris e se impressionar com o macro, é quando você para e observa os detalhes que entende de onde vem a grandiosidade.
Há uma sensualidade muito mais psicológica do que explícita em “FOI”. Você sente que amadureceu a forma de falar sobre desejo na sua música?
Pra falar a verdade, eu nunca tinha explorado a sensualidade em uma música antes, então não dá pra falar exatamente em amadurecimento, já que esse processo está começando agora. O fato de a letra não ser tão explícita tem mais a ver com o meu conforto ao tratar desse tema. Pelo menos nesse momento, e especificamente em Foi, esse caminho mais sugerido fez mais sentido pra mim. Mas não excluo a possibilidade de ser mais direto no futuro. Eu ouço funk há muitos anos e gosto dessa linguagem, então é algo que pode aparecer mais pra frente.
Como tem sido assumir de vez essa fase solo, sem amarras estéticas ou de formato?
Minha trajetória solo começou muito mais por circunstâncias da vida do que por um plano. Em 2016 eu criei a Segunda Lei, uma banda de rock, num momento em que todos nós tínhamos mais tempo e menos responsabilidades. Com o passar dos anos, ficou cada vez mais difícil nos reunirmos, até que em 2022 os ensaios simplesmente pararam. Paralelo a isso, eu também fui me afastando do rock. A partir de 2018 comecei a consumir mais trap, rap nacional e pop, e a me identificar muito mais com a verdade que essas cenas traziam nas letras do que com o ambiente conservador que o rock tinha se tornado pra mim. Como a necessidade de compor nunca acabou, a carreira solo acabou sendo um caminho natural. Hoje, não ter amarras estéticas ou de formato é imprescindível pra que eu continue criando. Eu decidi abraçar minha pluralidade, na vida e na música. Não faria sentido limitar minha voz a um único estilo ou me podar para ser mais mercadológico, e isso fica bem evidente no lançamento que virá em outubro, que se chama “Fragmentado”.
Olhando para frente, o que você já pode adiantar sobre os próximos lançamentos e os planos de carreira para 2026?
A partir de “FOI”, o planejamento é lançar um single novo a cada dois meses. No dia 6 de fevereiro sai “Perco a Fala”, com mais um clipe gravado em Paris, seguindo a mesma proposta audiovisual. Na sequência, pretendo lançar minhas duas últimas composições, “Novo Dia” e “Larguei Tudo Por Você”. Confesso que a vontade é soltar tudo de uma vez, mas estou tentando respeitar o tempo de cada lançamento. Ainda este ano quero voltar aos palcos, faz muitos anos que não faço shows e estou com muita vontade de cantar ao vivo de novo. Já 2026 deve marcar a retomada das apresentações e, ao mesmo tempo, o início de um trabalho mais focado no longo prazo, com a construção de um álbum com começo, meio e fim, identidade visual, estética e um conceito mais sólido, indo além da lógica de lançar apenas singles.


