Alma Djem encontra o PARAÍSO: reggae, poesia e novas conexões musicais
Marcelo Mira – vocalista do Alma Djem – (Marcos Hermes)
Quase duas décadas depois de deixarem Brasília rumo a São Paulo, os integrantes da banda Alma Djem seguem firmes em sua missão de misturar sonoridades brasileiras com a alma do reggae. No projeto Acústico em São Paulo, essa fusão se intensifica ao lado de grandes nomes da música nacional. Este quarto EP, intitulado “Paraíso”, conta com colaborações com Roberta Campos e Filipe Toca e reforça o momento de maturidade criativa e emocional da banda.
Com letras poéticas, arranjos que caminham entre o reggae, a MPB e outras latinidades, e uma entrega cheia de verdade, o Acústico se tornou não apenas uma homenagem à capital paulista, mas também um retrato de um Brasil plural, híbrido e aberto ao diálogo musical. Nesta entrevista ao Mais Brasil, o Alma Djem fala sobre parcerias, bastidores, composições e os próximos passos desse projeto que segue encantando o público e reafirmando o poder da música como ponte entre mundos.
Mais Brasil: O projeto “Acústico em São Paulo” já está no quarto EP. Como vocês definem a evolução sonora e emocional da banda ao longo dessa jornada até “PARAÍSO”?
Mira: A banda está muto feliz com o resultado dos 4 eps do Acústico lançados até aqui. Conseguimos dialogar com vários públicos através da diversidade das músicas e das nossas participações especias, seja a galera do Reggae nas músicas com Maneva, Maskavo, Adão Negro e Macucos, a galera do pagode com Atitude 67, do Rap com Fábio Brazza e agora da MPB com Roberta Campos e Filipe Toca. Na questão emocional havia uma expectativa muito grande em saber como o público reagiria a esse trabalho, porque nos dedicamos muito a ele, e estamos felizes com o resultado. A galera tem ouvido, gostado e compartilhado bastante.
Mais Brasil: “Rouxinóis” já tinha uma carga poética forte, mas agora ganha uma nova vida na voz da Roberta Campos. Como nasceu essa conexão e por que essa faixa foi escolhida para essa parceria?
Marcelo Mira: Gravamos Rouxinóis em 2023 e soltamos nas plataformas de música sem fazer muito alarde. A música andou sozinha e ganhou mais de 500 mil plays em pouco tempo. Quando decidimos trazê-la para o repertório do acústico, lembramos imediatamente da Roberta, pois somos muito fãs do seu trabalho e nosso baixista PIT já havia tocado numa tour em sua banda. Quando a Roberta ouviu Rouxinóis aceitou na hora. Talvez pela delicadeza da letra e da melodia e também por essa mistura do Reggae com a MPB.
Mais Brasil: A música tem assinatura de grandes nomes da composição como Rodrigo Leite e Cauique. Como foi esse processo de coautoria? Qual foi o ponto de partida para criar essa declaração de amor em forma de reggae?
Marcelo Mira:Eu faço parte de vários grupos de composição e um deles é com o Rodrigo Leite, Diogo Leite e Cauique, que sáo hitmakers consagrados. Já temos mais de 50 músicas em parceria, inclusive uma chamada “delirante” gravada pelo Thiaguinho e que foi música tema da Tardezinha. Rouxinóis surgiu no nosso primeiro encontro. Foi a primeira música que compusemos juntos. E foi muito bom trazê-los pro universo do Reggae, já que são compositores muito fortes no Samba e responsáveis por sucessos como “Pé Na areia”, “Falta você” e “Clareou”. Assim que terminamos a música eu disse que iria gravar com o Alma Djem. Ali mesmo eu já havia visualizado que daria um lindo Reggae autenticamente brasileiro.
Mais Brasil: O EP também traz a participação do Filipe Toca em “Praia do Segredo”. O que essa parceria acrescentou à atmosfera do trabalho? E como ele se encaixa na proposta do Acústico em São Paulo?
Marcelo Mira: Falando do compositor, o Toca foi um presente que ganhei. No nosso primeiro encontro fizemos Estrela, ao lado de Guga Fernandes, que é uma das músicas mais bonitas do DVD. A partir daí saíram várias e temos 9 músicas em parceria nesse DVD, inclusive Praia do Segredo da qual ele participa.
Uma dessas músicas, ”Entre o bem e o mal”, foi composta no dia 2 de janeiro de 2024. Enquanto todos estavam na ressaca da virada de ano, já estávamos trabalhando nas composições. Sobre convidá-lo como intérprete, estávamos buscando alguém da nova geração que estivesse se destacando, e também queríamos trazer uma veia nordestina para o trabalho. Toca se encaixava nos dois quesitos e garantiu sua presença marcante no álbum.
Mais Brasil: Vocês transitam com fluidez entre o reggae e a MPB. Sentem que esse caminho híbrido está cada vez mais consolidado na identidade da Alma Djem?
Marcelo Mira: O Reggae do Alma Djem sempre foi híbrido e sempre se misturou com elementos de outros estilos como o Rock ,o samba, a black music e principalmente a mpb. Nossa formação musical passa muito por Djavan, Gil, Benjor, Caetano, Paralamas. Seja nas melodias, harmonias e também nas letras. Como é um trabalho acústico é muito natural que a sonoridade mais MPB se sobressaia, mas trouxemos por exemplo Reggaeton e outras latinidades em músicas como Flor e Tangerina e Abre Caminhos. Tudo isso não impede de nos próximos trabalhos voltemos com uma sonoridade plugada com guitarras e batidas mais pesadas. Experimentar e nos desafiarmos é uma coisa que trazemos na nossa essência.
Mais Brasil: No contexto atual da música brasileira, vocês percebem uma abertura maior para essa mistura de gêneros e formatos acústicos? Como o público tem reagido a esse novo som de vocês?
Marcelo Mira: Já faz alguns anos que percebemos que a playlist do brasileiro mudou. Nos anos 80, 90, as tribos eram mais separadas. Hoje os muros do preconceito foram caindo um a um, principalmente entre os mais jovens. A cultura dos feats também ajudou muito nessa quebra de paradigmas. Hoje artistas de todos os segmentos se misturam. Do Piseiro ao Heavy metal. Da Sandy ao Angra, João Gomes com Vanessa da Matta. Então pra gente, trazer pro nosso universo artistas como Atitude 67, Fábio Brazza, Falamansa e Roberta Campos, por exemplo, é muito natural. Queremos até experimentar mais ainda nos próximos trabalhos.
Mais Brasil: Cada EP deste projeto tem ganhado nomes específicos. Qual foi o conceito por trás desses nome e o que eles representam dentro da proposta geral do projeto acústico?
Marcelo Mira: A banda está em São Paulo desde 2002. Mesmo tendo nossas raízes fincadas em Brasília, onde começamos nossa carreira, hoje também nos consideramos cidadãos paulistanos. E esse Acústico em São Paulo é uma homenagem a essa cidade acelerada que nos deu e dá muito, mas também nos tira um pouco, todo dia, num balé caótico que só uma grande metrópole pode proporcionar. Cada EP ganhou o nome de um lugar emblemático da cidade. Porém sáo nomes que também trazem subliminarmente um pouco da poesia urbana que nos permeia e acalenta no dia a dia, como Harmonia, Liberdade, Paraíso e Luz.
Mais Brasil: A relação da banda com São Paulo também parece muito presente nesse projeto. O que essa cidade representa para vocês musicalmente e emocionalmente?
Marcelo Mira: São Paulo é escola. É onde pessoas que estão dispostas a dar tudo de si se encontram para criar e cocriar à base de muito suor. Por isso viemos de Brasília pra cá em 2002 e apostamos na força dessa cidade. Esse Dvd é um agradecimento a São Paulo. É uma retribuição por tudo que ela nos deu e dá em conhecimento, parcerias e qualidade no nosso trabalho. São Paulo continua sendo uma mistura do Brasil todo numa cidade só.
Mais Brasil: O que os fãs podem esperar das próximas etapas do projeto “Acústico em São Paulo”? Já existem novas colaborações ou direções sonoras no horizonte?
Marcelo Mira: Ainda temos dois EPs para serem lançados nos próximos meses. Neles traremos a participação de Vitor Kley, que é um fenômeno da nova geração. Tem também o reggae gaúcho do Chimarruts e mais uma música com o Falamansa. Muita coisa boa ainda está por vir até a conclusão desse lançamento. É só a galera ficar ligada nos vídeos do youtube , nas plataformas de música e nas redes sociais da banda.


