DUNA transforma instabilidades afetivas em canções lo-fi sobre o amor em tempos digitais
Foto: Divulgação
Projeto em duo de Everton Behenck e Guilherme Rech lança disco narrativo acompanhado de clipe para o single “Sal & Sombra”
Assista ao videoclipe “Sal & Sombra”: https://youtu.be/
DUNA é o encontro entre Everton Behenck e Guilherme Rech, músico da banda Lã e do projeto Amigo Imaginário, em um repertório de canções que observam relações afetivas marcadas por instabilidade, desejo e contradição. Desenvolvido ao longo de 2024, o disco nasce do interesse em transformar experiências cotidianas de aproximação, afastamento e ruído emocional em pequenas cenas musicais, em que a intimidade aparece atravessada pelo modo como nos relacionamos hoje, quase sempre mediado por telas, mensagens e silêncios.
O título do projeto funciona como metáfora desse território móvel. A duna, que muda de forma conforme o vento e o deslocamento do corpo, aparece como imagem de relações que se reorganizam o tempo todo, alternando momentos de leveza e sufocamento, proximidade e desgaste. Ao longo das faixas, o amor surge menos como promessa de estabilidade e mais como movimento contínuo, feito de avanços, recuos e tentativas de permanência.
A parceria entre Everton e Guilherme se construiu inteiramente à distância, com um em São Paulo e o outro em Florianópolis. O processo de criação, troca de ideias e finalização das músicas aconteceu por mensagens, incorporando à própria feitura do disco a mediação que atravessa seu tema. As bases desenvolvidas por Guilherme deram origem a melodias e letras de Everton pensadas como cenas, com início, tensão e consequência, formando um conjunto narrativo que se escuta como um arco emocional.
Em termos sonoros, o disco aposta em uma estética lo-fi de caráter íntimo, com vozes próximas e arranjos que sustentam o clima sem disputar atenção com a narrativa. A atmosfera remete a calor, litoral e madrugada, criando um espaço em que romance e ruído convivem. A captação e edição de vocais ficaram a cargo de Lou Schmidt, da AntFood, e a mixagem e masterização foram realizadas por Fernando Ianni.
Ao longo do repertório, as canções percorrem diferentes estados de uma mesma relação: o impulso de bloqueio que convive com a recaída, o pós-relacionamento vivido na tela, a insistência diante do silêncio, o respiro ilusório da reconciliação, a travessia imperfeita de quem ainda tenta acreditar, o jogo afetivo como mecanismo de defesa e, por fim, a madrugada como espaço da recaída sem glamour. As faixas se organizam como capítulos de uma história que se constrói na fricção entre desejo de permanência e vontade de fuga.
“Quando existe agressão física ou uma violência muito explícita, é fácil identificar uma relação tóxica. Mas existe uma zona cinza onde quase todo mundo já esteve: até onde é uma dificuldade natural da relação? Até onde é desgaste? E quando começa a ultrapassar um limite? Nem o disco nem o clipe querem responder isso de forma definitiva – porque cada pessoa sabe os próprios limites. Mas a discussão está no ar.”
O lançamento do disco é acompanhado pelo videoclipe do single “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado. Utilizando inteligência artificial como linguagem narrativa, o clipe desloca a estética de animações populares para situações adultas, marcadas por conflito, desejo, recaída e silêncio. A narrativa acompanha dois porcos-espinhos que tentam se aproximar, mas se machucam ao encostar, imagem que sintetiza o núcleo do projeto: a dificuldade de sustentar a intimidade quando o afeto também carrega espinhos.
FAIXA A FAIXA
Sal & Sombra
A faixa-manifesto do projeto. Bloqueio, fake, contradição, e o “I love you” aparecendo como resposta automática no meio do caos. É sobre dizer “nunca mais” enquanto o corpo ainda gruda.
Scroll
O pós-relacionamento vivido na tela: escrever e apagar, apagar fotos, tentar entender com quem o outro vai sair. É a ansiedade do amor digital, onde todos estão mesmo não estando.
Cais
Teimosia e repetição: querer “o que não foi”. Uma música sobre insistir mesmo quando o silêncio já respondeu — e continuar voltando.
Marau
Uma faixa que parece respiro: mar, calma, promessa de ficar. Uma volta cheia de esperança. Mas mesmo aqui existe urgência — como se o carinho fosse também uma tentativa de cura.
Navegar
A faixa mais “cinematográfica” do disco: travessia, imperfeição, abrigo. Um amor que tenta convencer a si próprio que merece existir.
Brincar
O mecanismo de defesa do casal: “brincar pra não se machucar”. Beijo e fuga, prazer e desvio. Um retrato de quando a relação vira jogo.
3 da Manhã
A recaída sem glamour. A mensagem que pede volta, o limite que às vezes foi cruzado, o desespero tentando se disfarçar de coragem.


