Gustavo Ortiz lança “Peixe pescado”, segundo single do álbum de estreia “Arrasto”
Faixa amplia o universo apresentado em “Afoxé do Nego Véio”, dialoga com a tradição da canção de protesto brasileira sob uma perspectiva contemporânea e coloca no centro a vida do trabalhador e a resistência construída em coletivo
Gustavo Ortiz apresenta “Peixe pescado”, segundo single de seu álbum de estreia, Arrasto. Após “Afoxé do Nego Véio” funcionar como introdução ao projeto, a nova faixa amplia o campo temático e sonoro do disco ao abordar a vida do trabalhador e as estruturas de exploração que atravessam o cotidiano, apontando para a construção coletiva como forma de resistência.
Se no primeiro lançamento a resiliência se manifestava pela celebração e pela dança, em “Peixe pescado” ela ganha contornos mais diretos de enfrentamento. A canção parte da imagem do trabalhador como “peixe que já nasce pescado” para abordar estruturas de exploração que atravessam o cotidiano. Ao mesmo tempo, propõe a retomada da autonomia e da ação coletiva, especialmente nas estrofes finais, marcadas pela presença de um coro que simboliza a força do cardume e da revoada.
A composição nasceu a partir de uma tentativa de Gustavo de estudar o partido-alto de João Bosco no violão. Da prática surgiu uma progressão harmônica que, desenvolvida ao longo de alguns dias, revelou a melodia da música. O tema retoma discussões já presentes em “José, João”, do EP Desafogo, e dialoga diretamente com a trajetória pessoal do artista, filho e neto de trabalhadores rurais, caminhoneiro, professora da rede pública e empregadas domésticas. A canção parte dessa vivência próxima, não como observação externa, mas como relato atravessado por experiência.
O título faz referência à pesca de arrasto, prática predatória que privilegia o lucro em detrimento da vida. A metáfora se desdobra ao longo da letra para representar as “redes” que capturam o trabalhador antes mesmo de qualquer escolha. No entanto, o conceito de arrasto também aponta para forças de resistência, aquelas que precisam ser criadas coletivamente para enfrentar estruturas que preferem corpos inertes e dóceis.
A sonoridade acompanha essa densidade temática. A bateria de Biel Basile, em registro grave, constrói uma base marcada que sustenta a tensão da faixa. O baixo de Marcelo Cabral reforça o andamento e ganha contornos saturados nas estrofes finais. A guitarra e o cavaquinho de Rodrigo Campos contribuem com timbres mais sombrios e incisivos, enquanto o violão, instrumento de origem da composição, ancora a levada nas cordas graves. O coro amplia a dimensão coletiva da narrativa. A faixa dialoga com a tradição das canções de protesto associadas a nomes como Chico Buarque e o próprio João Bosco, ao mesmo tempo em que se aproxima de abordagens contemporâneas de artistas como Juçara Marçal, Ava Rocha e Douglas Germano.
“Peixe pescado” encerra o ciclo de singles antes do lançamento completo de Arrasto e sintetiza três eixos que atravessam o trabalho de Gustavo Ortiz: exploração, revolta e coletivo. A faixa se direciona a ouvintes interessados na tradição da música brasileira de cunho social, mas também dialoga com públicos do rock e do rap que articulam crítica política e pesquisa sonora, em linhagem que passa por Titãs, Criolo, Emicida e Marcelo D2.


