Lucas Santtana lança seu décimo álbum, “Brasiliano” , que canta a história da nossa língua em oito idiomas
- ARTIGO
@MaisBrasil
- 6 de março de 2026
Lucas Santtana por Sandra Mehl
Obra musical comemora 25 anos de carreira do artista e investiga a história, a política e a identidade da língua falada no Brasil, com músicas inéditas em brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau (kriol) e parcerias com nomes como Gilberto Gil, Rachel Reis, Os Paralamas do Sucesso, Chico César, Dimartino e Tainara Takua
O décimo álbum de Lucas Santtana, cantor, compositor e produtor baiano que comemora 25 anos de carreira, tem uma missão ousada: reconhecer a identidade, riqueza e complexidade de uma língua brasileira. Para desenvolver esta ideia, o artista apresenta no dia 06 de março “Brasiliano”, disco cantado em oito idiomas: brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau (kriol). Propondo uma reflexão rara sobre língua, poder, apagamento cultural e pertencimento, a obra narra em onze faixas inéditas a jornada da nossa língua desde o latim vulgar, na Itália, até as influências do tupi-guarani e das línguas africanas no Brasil. O disco ganhou prefácio e posfácio assinados respectivamente por Caetano Galindo e Sérgio Rodrigues.

Antes de seu lançamento, a obra contou com três singles lançados: Depois de cantar com Gilberto Gil road movie linguístico “A História da Nossa Língua”, Lucas lançou “Strati di Tempo”, parceria com o cantor italiano Dimartino, e sua primeira parceria com Os Paralamas do Sucesso, “Que Seja um Reggae”. Lançado em outubro, o primeiro capítulo musical do novo álbum de Lucas Santtana apresenta a língua como uma personagem feminina. Uma mina que nasce latina e atravessa oceanos até encontrar o português, o tupi-guarani e outras matrizes que formam a base do idioma falado no Brasil. Palavras como Itapuã, Ipanema, Maracanã e capoeira compõem a poética da faixa, representando a dinâmica viva dessa solução linguística de sucesso. Inspirada no livro “Latim em pó”, de Caetano Galindo, a letra convida o público a refletir, e dançar, sobre a língua como um organismo em constante transformação. A produção da faixa traz orquestração épica e elementos de arrocha, baixo motown, guitarras, sintetizadores e psicodélicos. “É como se a nossa língua fosse um ser feminino que nasce na região de Lazio-Itália e depois faz uma longa viagem até encontrar o Tupi-Guarani, com a chegada das caravelas portuguesas no Brasil. Nessa jornada ela encontra outras “pessoas”, que são as línguas que fazem parte da formação do português e consequentemente do Brasiliano. São elas o Occitano, o Celta, o Galego, o Moçárabe, o tupi-guarani.”, explica Lucas.
Já a primeira música composta por Lucas em italiano inaugurou a aventura numa linha do tempo que tem como ponto de partida o país europeu. “O italiano é a língua românica mais próxima do latim vulgar, já que foi de uma região da Itália, a Toscana, que essa língua partiu em viagem pelo mundo, por meio da expansão do império Romano. A língua italiana e a língua brasileira têm muitas palavras em comum. Algumas com o mesmo sentido e outras que se escrevem igual, mas que têm significados diferentes. Contudo as vogais abertas trazem uma musicalidade parecida entre ambas.”, explica Lucas Santtana.
O segundo single da trajetória global de “Brasiliano” aborda a língua como uma transmissão familiar, que é passada de geração em geração por avós, mães e filhas, como camadas ao longo do tempo. A cada geração a língua materna vai sofrendo pequenas alterações em função das mudanças culturais e comportamentais que se refletem na linguagem. Mas ao mesmo tempo, diz a canção, a língua materna sempre ocupará um lugar principal dentro de nós como herança e memória. A música tem a participação de Dimartino, cantor vencedor do maior festival de música da Itália, Sanremo, e integrante do duo de música pop Colapesce.
Terceiro single do álbum, “Que Seja Um Reggae” é a primeira parceria de Lucas com Os Paralamas do Sucesso, fechando um arco de 25 anos desde a icônica gravação de Lucas da música “Mensagem de Amor”, de Herbert Vianna. A música inédita fala de um amor que não chega como algo colossal e arrebatador. Vem silencioso e de uma maneira lenta e contínua, mostra-se surpreendente ao longo do tempo.
A história de Lucas Santtana com Os Paralamas do Sucesso começou na gravação do seu primeiro álbum, que traz a versão de “Mensagem de Amor”. A música foi trilha sonora de novela e até hoje toca no rádio. “É a minha gravação mais escutada nas plataformas digitais de música. Muita gente pensa até hoje que a música é minha.”, conta Lucas. Anos depois, no álbum “O Deus que Devasta também Cura”, Lucas gravou uma versão da faixa “Músico”, parceria dos Paralamas com Tom Zé. O cantor, compositor e produtor baiano comemora a parceria neste momento celebrativo. “Finalmente, 25 anos depois de ‘Mensagem de Amor’, tenho a honra de tê-los cantando e tocando comigo a minha música ‘Que Seja um Reggae’. Um ciclo que se completa, mas espero que não termine, pois quero sempre estar perto dos meus heróis de adolescência.” , emociona-se.
Com o lançamento do álbum, no dia 06 de março, o público poderá ter acesso a todos os capítulos desta minuciosa obra, repleta de história e afeto. Ao lado de Rachel Reis, em “Eu Ainda Te Amo”, Lucas aborda o amor a partir da ausência e do arrependimento, quando a compreensão do afeto só se revela após a perda. Já em “Ver Meu Povo se Abraçar”, parceria com Chico César, o álbum retoma a coletividade da língua como espaço de celebração, encontro e memória compartilhada. A faixa é uma homenagem às festas de São João interrompidas pela pandemia e evoca a origem medieval da celebração, nascida na Occitânia e ressignificada no Brasil. Ao unir sanfona, dança e cultura popular, Lucas e Chico reafirmam a língua como território vivo, onde história, fé, festa e resistência se entrelaçam. Um abraço que simboliza reencontro social e cultural após um período de suspensão e silêncio.
A dimensão política e histórica de “Brasiliano” intensifica-se em “Línguas Gerais”, que reúne a cantora indígena Tainara Takua e o rapper francês Oxmo Puccino. A faixa parte do tupi-guarani, base das línguas gerais faladas nos primeiros séculos do Brasil, para abordar colonização, apagamento cultural e racismo linguístico. A canção amplia o debate sobre língua e poder, revelando como o controle da fala sempre foi uma ferramenta de dominação.
Ao longo de “Brasiliano”, Lucas Santtana investiga a língua como herança íntima e campo de reinvenção contínua. Se em “Strati di Tempo” o idioma aparece como uma transmissão familiar, geracional e afetiva, em “Liga”, com o duo occitano Cocanha, a língua surge como gesto político, capaz de reconhecer um povo e resistir ao desaparecimento de culturas ameaçadas. Canções como “Cuando Mi Lengua”, com a poeta galega Maria Lado, e “Battre des Ailes”, com Piers Faccini, ampliam essa reflexão ao tratar a língua tanto como corpo e desejo quanto como paisagem sonora e observação do tempo. Enquanto “Independência”, com Karyna Gomes, encerra o disco afirmando a autonomia do brasiliano e conectando essa reivindicação às lutas linguísticas de países africanos de língua crioula. Uma obra repleta de símbolos que celebra os 25 anos de Lucas com um encontro artístico consistente entre música, história, pensamento crítico, identidade e crítica social, de forma poética e contemporânea.
Faixa a faixa “BRASILIANO”
Por Lucas Santtana
1- “A História da Nossa Língua” feat. Gilberto Gil
(Lucas Santtana)
Abro o álbum com uma canção de orquestração épica para contar a trajetória da língua que falamos. Imagino a língua brasileira como um ser feminino que nasce do latim vulgar, na região do Lácio, e atravessa o oceano até encontrar o tupi-guarani no Brasil. Nessa viagem, ela se transforma ao cruzar com outras línguas que moldaram o Brasiliano, como o occitano, o celta, o galego e o moçárabe. A canção costura palavras indígenas presentes no nosso cotidiano e culmina na pergunta: “Que língua é essa? Essa língua é brasileira!”. A faixa foi inspirada no livro Latim em pó, de Caetano Galindo, e conta com a participação de Gilberto Gil, hoje membro da Academia Brasileira de Letras.
2- “Línguas Gerais” feat. Tainara Takua e Oxmo Puccino
(Lucas Santtana/ Oxmo Puccino)
A faixa começa com a voz da jovem cantora indígena Tainara Takua, cantando “Beija-flor”, composição sua em tupi-guarani. Essa língua foi a base das línguas gerais, faladas majoritariamente nos dois primeiros séculos e meio do Brasil. A canção também traz o rapper francês Oxmo Puccino, refletindo sobre colonização e decolonização. Ao mencionar a frase “ê monsieur! on parle l’afriquée!”, a música critica a confusão racista e xenófoba promovida por Éric Zemmour ao estigmatizar a fala de filhos de imigrantes das ex-colônias francesas, ampliando o debate sobre língua, poder e apagamento cultural.
3- “Liga” feat. Cocanha
(Lucas Santtana/ Caroline Dufau e Lila Fraysse)
Essa canção fala da importância de escutar a própria língua para reconhecer o seu povo. Se a cultura define quem somos, a língua é sua base: é ela que nomeia o mundo. Cocanha é um duo feminino que canta em occitano e tem sua pesquisa artística voltada à preservação dessa língua ameaçada. O occitano influenciou o espanhol e o galego a partir do século XIII, por meio dos trovadores medievais, e essas transformações chegaram ao português e, mais tarde, ao Brasiliano.
4- “Strati di Tempo” feat. Dimartino
(Lucas Santtana)
5- “Dans Le Sud” feat. Flavia Coelho
(Lucas Santtana / Flávia Coelho)
6- “Cuando Mi Lengua” feat. Maria Lado
(Lucas Santtana)
7- “Ver meu Povo se Abraçar” feat. Chico César
(Lucas Santtana/ Chico César)
8- “Eu Ainda te Amo” feat. Rachel Reis
(Lucas Santtana/ Fábio Pinczowski)
9- “Battre des Ailes” feat. Piers Faccini
(Lucas Santtana/ Piers Faccini)
10- “Que Seja um Reggae” feat. Os Paralamas do Sucesso
(Lucas Santtana)
11- “Independência” feat. Karyna Gomes
(Lucas Santtana / Karyna Gomes)
FICHA TÉCNICA BRASILIANO
Produção Lucas Santtana
Mixagem Fabio Pinczowski
Masterização Brendan Duffey
Gravado por Fabio Pinczowski (Studio 12 Dolares – São Paulo), Orpheo (Studio Vox – Montpellier), Yoan Jauneaud (Studio Kasbah – La Grange), Julien Reyboz (Studio Ohm Sweet – Paris), Bruno Buarque (Studio Minduca – São Paulo), Lucas Santtana (Home studio – Montpellier), Yannick Tournier (Studio Watti – Toulouse), Caetano Malta (Studio Bambino – Paris), Leo Alcântara (Studio Visom – Rio de Janeiro), Apu Tude (Studio Ori – Salvador), Dimartino (home studio – Milan), Thiago Braga (Studio Palco – Rio de Janeiro), Alexandre Fontanetti (Studio Space Blues – São Paulo) e Seco bass (Máquina de louco – Salvador)


